Gambiarra – Exposição individual de Rimon Guimarães

Rimon Guimarães apresenta em Curitiba a mostra Gambiarra. O evento acontece nos meses de agosto e setembro de 2019, em dois espaços simultaneamente: A Tetra Galeria e o Espaço Coletiza. A iniciativa traz ao público cerca de 90 obras realizadas nos últimos 10 anos, com programação gratuita ao longo do período expositivo, como visitas guiadas às suas obras nas ruas da cidade, roda de conversa com a poeta Alice Ruiz, oficina de pintura com crianças, e encontros musicais. Desta forma se posiciona para além da noção de exposição, como um complexo de práticas artísticas cujo método é a própria linguagem. O projeto está sendo realizado através do Programa The Dean Collection TDC20 NY, com o qual o artista foi premiado.

“Estou muito feliz de poder apresentar uma grande quantidade de trabalhos de atelier na minha cidade natal. Vivo viajando, levando minha arte para o mundo, mas agora tive a oportunidade de fazer algo aqui em Curitiba! Quero ver todos que acompanham meu trabalho, olhar no olho de cada um e viver um momento único de vitória da arte diante de toda a repressão atual!”

“Gambiarra é como eu costumo trabalhar com pintura, e como eu penso a obra de arte como um todo, que é fazer funcionar de alguma forma, mesmo que seja improvisando. Na pintura comigo é sempre assim, quando começo não sei o que eu vou fazer, começo botando tinta e daí vou montando até resolver aquilo visualmente.”

Telas expostas na Coletiza.

“O Rimon é um artista que não depende de uma galeria para os trabalhos dele estarem aqui. Ele pode. Ele chama, ele vai, ele tem interesse, ele é um cara da comunicação. O trabalho dele vai dialogar com a galeria como conversa com a rua, sem perder a sua integridade, sem negociar essa integridade, porque o que ele faz já é a própria visibilidade do trabalho. E em nenhum momento o trabalho do Rimon precisou ser legitimado por uma instância externa para se colocar.”

Margit Leisner, Galeria Farol Arte e Ação

25/8 chá com Alice Ruiz

“A gambiarra está presente em tudo, porque a gente não consegue prever tudo, as vezes a gente não tem o que precisa pra fazer o que quer, e tem que improvisar de alguma forma, então a gente usa o que tem. Seria a estética da escassez, de criar novas alternativas, invenções que nos ajudam a desenvolver algo que a gente quer. Se manifestar na rua é uma espécie de gambiarra, onde você vê o que tem disponível pra se expressar, seja com um carvão na mão escrevendo uma frase de protesto, ou com tintas, milhares de cores, e ficando ali um mês pintando um mural. Esse lugar de fala da rua é uma forma de escape da expressão para os artistas em geral.”

“A única diferença da arte que eu faço na rua pra cá é o acesso. Porque na rua tem pra todo mundo. Uma senhorinha que tá passando ali vai ver, vai se deparar com aquilo, uma pessoa que não quer ver arte também vai se deparar com aquilo. E na galeria só vem quem quer ou quem tem acesso a isso.”

“Existem galerias e galerias, com posicionamentos diferentes. As vezes esse lance de representação não é compensado, porque você trabalha só para essa galeria, é exclusivo dela, e a galeria não faz o papel de divulgação do seu trabalho como deveria fazer. Tem galerias que pagam salário, daí faz algum sentido, mas muitas vezes você é exclusivo, elas não te dão nada e você não pode fazer coisas com outros espaços. É bem delicado. Eu raramente trabalho com exclusividade total à galeria. Tenho trauma disso. Porque as vezes a galeria tem uma visão puramente comercial do seu trabalho, e você tem todo o romantismo do negócio, ficou um mês pintando a tela, durante esse mês aconteceram várias coisas na sua vida, tem um apego ali, uma carga emocional muito forte, mas a galeria vê como produto, apenas: “isso aqui é tanto, a porcentagem é tanto, a gente precisa descolar um cliente X que tenha grana para comprar sua obra”. E as vezes você ficaria mais feliz se vendesse pra um amigo seu, que estivesse ali, você sempre fosse na casa dele e a visse. Tem galeria em que você não tem nem o contato com quem comprou. É uma coisa muito íntima sua e você não vai ter acesso depois.”

“É muito pequeno também o mercado de arte brasileiro, não existe um giro grande, não existe essa cultura de comprar arte, é uma coisa que está começando, principalmente em Curitiba. Ou terminando! Mas, eu acho que estão começando novos colecionadores, um novo perfil de colecionadores, que são pessoas da idade do artista, ou do convívio do artista e que querem ter uma obra por afinidade, e não pra mostrar para os seus convidados que tem uma tela gigantesca, etc.”

“Eu acho perigoso depender de uma só fonte. Eu também trabalho com ilustração de livros, moda, eu deixo bem amplo. Não ganho dinheiro só com a venda de trabalhos assim, senão estava ferrado, não estava aqui. Eu tenho trabalhos que vendem em galeria, tenho projetos de lei de incentivo que as vezes eu faço, fiz uma ilustração para o Google, são varias frentes atuando. Eu vejo muito artista dependendo de uma fonte só e se ferrando.”

Rimon Guimarães

“Há quase 50 anos, a gente saía na rua de madrugada para escrever frases como uma forma de protesto, mas com humor. Eu escrevia “Tá apertado mas não tá justo”, eu enchi a cidade de “Tá apertado mas não tá justo”. O Paulo escrevia “Pau no Leminski”, e a cidade pensava: Oh, tem alguém com raiva do Leminski! E era ele mesmo! A gente fez muito isso em muitas madrugadas. Era uma coisa super bonita porque ficava aquele mistério. Era uma declaração de amor, e um gesto de amor em tempos de repressão é tudo que se precisa. Arte, amor, carinho, afeto. E tinha uma discussão muita boba de que aquilo era pixo. Mas, aquilo era arte de rua, era grafite, não era pixo. O gesto era. Mas, o que a gente estava fazendo era arte.”

“Hoje quebrou-se esse paradigma de que existe uma linguagem para a arte de rua e outra linguagem para a galeria. Agora é o artista, é a linguagem daquele artista que importa.”

“Onde eu menos ganho é em venda de livros. Direito autoral de música é legal, uso de poemas em livros didáticos, somando ali e ali de repente é legal, e afora isso eu não parei de trabalhar, a ideia de aposentar não me passou pela cabeça, eu continuo dando palestras, dando oficinas de haikai, participando de shows com a Alzira Espíndola. Eu não quero me aposentar. Porque com a idade a gente vai ficando sozinha, até porque a gente vai ficando rabugenta. Não é só que vai ficando sozinha porque ninguém quer saber da gente, é a gente que não quer saber. Mas você não pode ficar rabugento sozinho todos os dias da tua vida porque isso é uma estagnação, é uma pobreza intelectual, existencial, espiritual, emocional e o escambau! Eu dou palestra, dou oficina pra ficar sempre viva, pra receber. É uma fonte afetiva da maior importância essa troca. Mas econômica também.”

“Agora, a venda de livros meio que está sumindo, tá virando e-book, tá desaparecendo como objeto mesmo, tá virando coisa de colecionador, colecionador de arte! Pouca gente pode ser colecionador de arte, e livro daqui a pouco tá assim também, pouca gente vai ter, porque é muito mais prático o e-book, tá tudo dentro daquela coisinha, daquela telinha. Claro, a experiência com o objeto livro existe, mas é para poucos. As pessoas não tem relação afetiva nem com as palavras, mais! Estão encurtando as palavras, tá tudo virando abreviatura, código. Tá esquisito isso. Não estou criticando, mas está indo em uma direção outra. Tudo pra dizer que assim como a relação entre as pessoas, a relação com o livro está mudando, e eu não vou lamentar também, eu acho que vai surgir uma nova coisa pra colocar no lugar.”

“A gente está querendo ver poesia em qualquer lugar hoje, a gente quer ver arte em qualquer lugar. E eles sabem muito bem o quanto é importante a arte, a cultura, a educação pra nossa força, pra nossa capacidade de aguentar certas arbitrariedades, certos absurdos que o sistema nos impõe. Então eles tentam minar por aí porque sabem que sem isso a gente fica fraco. E é por isso que nós estamos aqui. É por isso que uma galeria se propõe a fazer uma conversa. É porque há uma consciência da necessidade disso. É como você falou, tem galerias e galerias. A gente tem que se reunir, conversar, e a gente não está procurando soluções, mas isto é uma solução. Estarmos aqui preocupados com isso já é uma solução!”

Alice Ruiz

Performance de Novíssimo Edgar e encerramento da exposição na Coletiza.

Ficha Técnica:

Galeria Farol Arte e Ação: Margit Leisner
Produtos loja Rim.on: Carmelita Guimarães
Costura de cortinas: Emilia Hermsdorff
Design e animação: Fred Freire
Montagem: Fernanda Stancik e Kiko Teles
Video: Felipe Oliver e Bernardo Lamers
Fotografia das obras e imagens desta publicação: Gilson Camargo
Fotografia e registro das aberturas: Gus Benke
Dj: Moreno Mongelos
Local studios: Priscila Busato e Ana Lino
Músicos: Thiago Ramalho e Marc Olaf

Abaixo, desenhos em papel expostos na Tetra Gallery.

Saiba mais:
https://www.instagram.com/rimonguimaraes/
https://rimondo.tumblr.com/


Rimon em casa, na Rua São Francisco, em Curitiba, em julho de 2019.

Agradecimentos:

Tetra Gallery, Coletiza, The Dean Collection (Alicia Keys e Swizz Beats), OUS, Maniac Brewing Co., Família Guimarães, 351, Barba, e todos que compareceram.


André Rimon, Rimon, e Carmelita Guimarães.

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